Não, não! Não se trata de uma crônica sobre o desjejum, café da manhã, gastronomia ou algo parecido. Dessa vez, falarei de algo vivido durante minha infância, não apenas por mim, mas por várias pessoas da mesma época. Vou explicar.
Quando crianças mais velhas iam brincar e uma mais nova queria participar da diversão, havia um combinado geral entre as mais velhas para que a criança mais nova fosse “Café com Leite”. Ou seja, a criança Café com Leite, brincaria numa posição de faz-de-conta. Verdadeiramente, se o Café com Leite ganhasse não valeria, se perdesse, não contaria. Tanto fazia. A opinião do Café com Leite não seria considerada. A criança não “vogaria”.
Eu já fui Café com Leite. Muitas vezes. E como foi ruim! Eu me sentia um verdadeiro zero à esquerda. Depois, fui ficando mais velha e deixei de ser considerada Café com Leite. Ao menos nas brincadeiras. Quando presenciei a condenação de outras crianças ao status de Café com Leite, compreendi exatamente o que elas sentiam. Por algumas, lutei pela não condenação. Por outras, me omiti.
Coisas de infância à parte, hoje penso quantas pessoas se sentem Cafés com Leites diante da vida, das situações que se apresentam ... Na verdade, esse processo poderia ser explicado sob diversos enfoques: há o enfoque econômico, o político, o ideológico, o psicológico, o social, antropológico, e mais.
Fico com a perspectiva psicológica, que por vezes compreende que trata-se de uma sistemática de mão-dupla: alguém condena você a não ser alguém e você, por outro lado, “concorda” em ser ninguém. E nessa concordância, é possível perceber que o tempo passa, mas o lado frágil vivido na infância permanece, perdura, persiste.
Convoco todos que se sentem Café com Leite, a se rebelarem e discordarem desse enquadramento. Não aceite esta pecha. Todas as manhãs quando você acordar, olhe para dentro de si e diga: “- Eu existo, sou gente, tenho idéias, desejos, sentimentos”. Em seguida, procure levar esta sensação para o mundo. Se você fizer isto, de verdade, tenho a impressão de que os rotuladores e desrespeitosos de plantão irão recuar e pensar: “-Ali tem uma pessoa, ali tem gente.”
Portanto, Café com Leite? Nunca mais.


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